Tuesday, December 27, 2011

Aquela que ninguém vê

Pela manhã, ao escolher cuidadosamente o par de sapatos a lhe esquentar o pés, o mesmo olhar comedido, por horas afogados em uma tristeza não pertencente, fita outro corpo. Pupilas observadoras de um espelho oval; único aos pares de quadros emoldurados na parede rosa. Duas estranhas, com o mesmo pincelar de ingenuidade no olhar. Na mesma urgência em que uma arrisca desvendar a outra, uma ânsia dissolve o encontro de duas almas que não se completam, nem se fundem; repulsam. Antítese e iguais na mesma medida.

O mesmo corpo que movimenta, resguarda-se, como quem evita ser concluída. Segue a corrida diária das horas, feito rotina que a persegue, e ela despista como tem feito com gentes, por aí. Escolhendo a dedo o vestido pra mais um dia de verão persistente, aquecido outono, e maquiagem que dure não um amor, mas algumas horas. A tal nariz empinado, que quando não distraída, retocada em mil pensamentos e tão fundo planos, anda a desvendar esconderijos alheios. Analisando minuciosamente passos e detalhes figurados a outrem, pra quem sabe entender o labirinto de tantos desconhecidos. Tímida, a quem desconhece; vazada em silêncios velados. Ela é aquele segredo que todo mundo quer desvendar. Com uma petulância até cômica, marcada pelo agir sem freios e humor ácido, raras vezes.

A que num rompante diz o que pensa, e no segundo seguinte folheia as sobras da sua intensidade; assinatura de nascença. E a quem a espreita, na curva de alguma esquina é notória, vertida como metida. - Ah, esnobe! - Jamais passando despercebida, mas nunca sendo entendida, feito o topo da esfinge: inatingível. Defesa própria que a fez diferença nesse mundo onde há apenas rótulos; interesse algum.

Quem a vê, sem notar a paleta que a compõe, semeia pelos ares a essência que na verdade inexiste. Junção do pouco que é exposto, vago e indefinido. Pode ser também, para alguns, aquela com um coração que derrete mais rápido que neve em dia solares e chora até mesmo com músicas de comerciais, tentando em seguida disfarçar aos risos a emoção. De humor ótimo; refinado. Prestativa, complacente com a dor do outro: sempre. Certeira, que tem na ponta da língua os melhores conselhos que defende seriamente, mas que pouco pratica na vida, a própria. Entende o caos do desconhecido, sem saber como lidar com as suas confusões internas. Alma antiga, que em dias incompreendidos, embrulha no bolso todas tristezinhas que esfolam o peito. Cala a largueza de uma vida que é pesada demais pra quem sente.
Ela é a mesma que tem medo de querer e a ausência de uma coragem para ir, e nem assim deixa de persistir. Arrisca e se tortura com as outras possibilidades deixadas, ao lado. Divaga pelo futuro que tem pés no presente e vontade desde o passado. Gosta de ter certeza, mas se doa mesmo é para o frenesi de todas as possibilidades de surpresa. Doida e santa, em um corpo só. Cheia de manias camufladas e gostos inusitados, repentinos. Ela é assim, o cheiro de uma página de livro novo, que dissipa no ar e logo já é outro. Terna e feminina, antiga até nos desejos. Ela é da maior chuva que escorre, a gota que não seca; aquilo que ninguém vê.

No comments:

Post a Comment